Sobre planos, o futuro e o vazio

   A ideia desse texto apareceu em um dia rotineiro, quando eu dei um play em um episódio de uma série sem esperar nada demais, mas ele me trouxe um sentimento familiar, uma personagem estava vivendo exatamente algo que eu tinha vivido 11 anos atrás (olhem como as datas são parecidas, acho bizarro como a vida tem essas coincidências) e lembrei que tinha escrito sobre isso. 

Minha vida é completamente outra, na verdade tanta coisa aconteceu que até é difícil resumir aqui, mas vou tentar, começando pelo texto original, que vou copiar exatamente como ele foi escrito na época. 

 

02/02/2012  

 

     É isso, eu não consigo fazer planos e nem estou falando daquelas perguntas de autoconhecimento, tipo “onde você quer estar daqui a 5 anos” ou “como você se vê em 10 anos”. Nem preciso ir tão longe, eu não consigo planejar algo para daqui a alguns meses. 

    Eu me apeguei tanto a minha rotina e minha vida toda dependia tanto dela que quando ela desapareceu, meu mundo desmoronou na minha cabeça. 

    Eu percebi que a rotina que tive a minha vida inteira (seja escola, trabalho, faculdade, etc.) foi entregue para mim praticamente pronta e eu só precisava seguir, então agora eu não tenho nenhuma habilidade de fazer planos. 

    Não estou reclamando, na verdade agradeço por terem me mantido longe do grande, perfeito e aterrorizante branco onde eu estou agora. Vou explicar melhor 

     Quando eu comecei a finalizar o meu TCC, começaram as perguntas como; “o que você vai fazer agora?” “vai trabalhar na área ou seguir estudando e fazendo cursos?”. Essas perguntas me causavam algum desconforto, mas nada que não pudesse ser contornado. Eu dizia que ainda não tinha certeza, ou que estava analisando as opções ou algo assim. 

    Conforme o tempo foi passando e o tom das pessoas passou a ter mais cobrança e desconfiança e eu fui me sentindo cada vez pior, porque eu sabia e a outras pessoas talvez também soubessem que era mentira, eu não estava pesquisando nada, porque não sabia o que pesquisar. 

     Agora o que começou com um pequeno desconforto e vergonha por não ter um plano, quando os meus colegas estavam estudando para um pós-graduação ou conseguindo um mestrado, se transformou nesse horrível e quase incapacitante branco, que é um vácuo total e é tudo que eu consigo ver quando tento olhar para o meu futuro. 

     Eu preciso achar um jeito de sair desse branco e montar a minha própria rotina, ao invés de aceitar a que me derem, até porque eu sei que não terei sempre alguém para fazer isso por mim. 

     Eu não tenho ideia de como fazer isso agora, mas eu preciso ultrapassar esse obstáculo e conseguir olhar para a frente e ver algo além do branco. 

  

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24/02/2023 

     Nos anos seguintes a esse trecho eu passei por várias fases: a cuidadora da vó, a que estava descobrindo seus problemas e trabalhando para melhorá-los, a histérica da pandemia e agora estou tentando voltar a viver normalmente. 

     Agora estou em uma situação melhor, não vou dizer que agora sou boa em fazer planos, mas acho que posso dizer que estou melhor em tentar, ou pelo menos isso foi uma coisa que a minha mãe me disse, acho que é como diz o ditado: “admitir o problema é o primeiro passo para resolvê-lo" ou “até o maior caminho começa com o primeiro passo”, tá bom, vou parar com as frases clichê de coach cafona, o ponto é que eu aceitei ir a psicóloga e tento seguir as recomendações dela, mesmo quando eu preciso sair da minha zona de conforto, na verdade principalmente nesses casos. 

     Uma vantagem que eu descobri sobre tentar as coisas é que às vezes eu posso gostar, como por exemplo, ir à academia. Todo mundo sabe que exercício físico tem vários benefícios para a saúde, mas isso não vem ao caso no momento, o fato é que eu nunca tinha frequentado uma antes e comecei sem muitas expectativas, mas com o tempo eu descobri que fazer exercícios me fazia muito bem e que me faz falta às vezes. 

     Agora o vazio não parece mais tão aterrorizante, não sei exatamente o que quero da vida, mas pelo menos eu consigo imaginar algumas alternativas, como ser atendente de algum lugar enquanto acho algo melhor, voltar a trabalhar com crianças ou talvez usar o que aprendi cuidando da vó em uma profissão, ou ainda pode não ser nada disso, mas eu vou acabar descobrindo.  

     Acho que a diferença entre a pessoa que escreveu aquele texto e a pessoa que sou agora é que na época eu não tinha ideia do que fazer, às vezes eu nem sabia se tinha algo que podia ser feito, ou deveria aceitar que a minha vida ia ser sempre assim mesmo, mas algo que os últimos anos me mostraram é que se você continua aqui é porque é mais forte até do que os seus piores dias (Eu sei que falei que ia parar com frases clichês, mas essa foi a última). 

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