A figura do pai voltou para a minha cabeça recentemente, não sei porque, mas um dia eu sonhei com ele e depois me deu vontade de escrever esse texto.
Eu não tenho nenhuma grande reclamação sobre o pai, tinha brigas de vez em quando, óbvio e uma vez ele falou algo sobre não poder me dar grandes viagens de presente, mas não importava, porque ele me deu tudo que eu realmente precisava.
Mas hoje o assunto não é sobe isso, e sim sobre a sua morte.
Na noite antes do fatídico acontecimento eu tinha dormido na sala da casa, não lembro porque, acho que foi porque meu quarto ficava meio afastado e estava muito frio, mas não tenho certeza, na verdade isso nem importa, então vamos voltar para a história. Fato é que eu estava na sala e o quarto dos meus pais ficava diretamente depois, e eu passei por ele para chegar no banheiro e vi o pai deitado na cama e de costas para mim e a mãe estava nervosa com alguma coisa (que na hora eu não sabia o que era), falando no telefone e pediu pra eu terminar de me arrumar e ir para a escola.
Quando voltei, minha vó materna, Lúcia e minha prima Juliana estavam lá, disseram que o pai tinha passado mal e que a gente ia almoçar na casa da vó.
O almoço virou o dia todo e depois disso a linha temporal fica meio confusa, só lembro de algumas coisas, como projetos de escola e uma barra de chocolate (não me perguntem, não sei explicar, só lembro da satisfação de ter ele contrastando com a preocupação com o pai).
O tempo foi passando e nada do pai voltar para a casa, então resolvi fazer um pedido ao céu, nunca fui muito religiosa, mas é como diz um ditado que ouvi uma vez "não tem ateu que resista à uma turbulência no avião" e pedi para o pai voltar para casa pelo menos até dezembro, assim ele poderia ir ao meu aniversário de 15 anos e passar as festas de final de ano com a gente.
Mais um período passou e a vó juntou eu e os guris e contou com toda delicadeza que os médicos tinham feito de tudo, mas infelizmente o pai não tinha resistido,. O Vitor, que ainda era muito criança, perguntou algo que eu nem lembro o que era, mas foi algo meio ingênuo tipo "mas como que ele tá?" e eu pensei que em outra situação a gente ia implicar com ele por fazer uma pergunta que tinha acabado de ser respondida, mas naquela hora, não era o momento para isso..
Nesse momento parece que abriu um buraco no meu peito e eu fui para o banheiro e comecei a chorar (pois é, ás vezes eu tenho a mania de me trancar no banheiro para chorar, talvez eu fale sobre isso um dia) e perguntar porque meu pedido não tinha sido atendido.
A minha dinda Cláudia e a Gabriela, filha dela chegam e tentam distrair a gente e melhorar o clima, no que me pareceu ser o momento imediatamente depois da notícia, mas todo esse processo me parecia ter levado um bom tempo, mas a mãe disse que foram dois dias, então não vou afirmar nada.
A mãe perguntou se eu queria ir ao velório, mas que achava que era melhor eu lembrar dele vivo e bem e não em um caixão, e eu concordei, mas fiquei muito culpada depois disso. Deixa eu me explicar melhor, eu não estou reclamando ou culpando ninguém pela minha decisão, eu realmente acho que é melhor ter a imagem do pai deitado na cama, ao invés dele todo pálido, ou sendo enterrado, mas eu fico pensando: Que tipo de filha não vai ao velório do próprio pai? Eu entenderia se ele quisesse ficar bravo comigo. Para melhorar a minha imagem, eu pelo menos fui pelo menos à missa de 7 dias dele.
Aliás, falando nisso, não tenho certeza se realmente acredito na ideia de vida após a morte e paraíso, mas essa hipótese de os nossos entes queridos estarem em um lugar melhor e que a gente possa se reencontrar um dia é algo bem reconfortante.
Outro momento interessante que ficou marcado na minha memória foi que a gente voltou para nossa casa, eu durmo na sala de novo, assisto um programa aonde o Fábio Jr. canta a música "Pai" e me desmancho de chorar. Na verdade até hoje me dá um nó na garganta quando escuto ela.
Uma situação que não tinha citado até agora é que a minha outra vó, a Maria, morava com a gente e eu só percebi que tinha um grande vácuo na situação dela enquanto escrevia esse texto, eu só recordo dela no dia a dia normal e que depois de tudo isso ela vai para uma casa de repouso. As etapas que levaram á isso eu não sei dizer.
O último acontecimento que encerra essa etapa da minha vida é que eu, a mãe e os guris vamos morar com a vó Lúcia. Ela é super importante na minha vida depois disso, mas aí já é ideia para outro texto.
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