A importância da vó na minha vida

      Eu tenho revisto pessoas e situações que tenham impactados a minha vida e esse texto é sobre minha avó materna. 
     Diferente da minha redação sobre o meu pai (que você pode ler Nesse link aqui) a trajetória da vó Lúcia foi bem mais longa, cansativa e complicada então vou ter que voltar vários anos na história.
     Acho que um bom ponto de partida foi quando a gente foi morar com ela, depois da morte do pai. Nesse momento ela abriu sua casa, nos incluiu na sua rotina e assim ela deixou de ser aquela vó padrão, que te paparica com doces e dinheiro quando você visita ela, para ser alguém que realmente faz parte da sua vida.
     Foi nessa época que eu consegui meu primeiro emprego, e sempre quando e voltava, a vó parecia feliz e me chamava de "trabalhadora do Brasil", não sei porque, mas isso fazia eu me sentir importante.
     Avançando na linha do tempo, ela deixou toda a sua vida e amigos para atrás e nos acompanhou quando nos mudamos para Santa Catarina.
     Outro situação muito importante que envolve a vó é o fato de que ela foi a primeira pessoa que percebeu que eu precisava de tratamento psiquiátrico, a vó estava falando no telefone até que ela falou algo como; "a Paula está bem, meio quieta, mas é o jeito dela". Nesse momento eu comecei a chorar sem parar, porque eu estava realmente quieta, mas na verdade, era porque eu tinha perdido toda a rotina que eu estava acostumada e não conhecia ninguém na nova cidade. Aí ela sugeriu que eu procurasse um profissional para lidar com isso.
     Quando eu fui a psiquiatra, ela sugeriu que eu criasse novos hábitos, incluindo acordar cedo e tomar um bom café da manhã e foi a vó que pegou para si a tarefa de providenciar isso.
     Essa etapa acabou, eu melhorei, cursei a faculdade e foi aí que a história começou a se inverter, era a vó que precisava de ajuda agora porque ela começou a ter dificuldade de tomar seus remédios sozinha e isso foi só o começo de um longo caminho.
     O tempo foi passando, e a vó foi acumulando vários problemas médicos, e por isso foi precisando de cada vez mais ajuda, inclusive para "serviços externos" como idas ao geriatra, terapia ocupacional compras na farmácia e etc. até que ela ficou presa em uma cama e minha rotina gerava totalmente ao redor dela, mas isso não era necessariamente ruim, até deitada ali ela continuava me ajudando, mesmo inconscientemente, dar alimentação e remédios para ela, entre outras coisas me obrigava a ter uma rotina regrada, além de sentir que o fato de saber que eu tinha tornado o dia dela melhor fazia eu também me sentir melhor.
     Além disso, cuidar da vó me dava um ótimo "disfarce", como eu era uma pessoa adulta e que tinha acabado a faculdade, era muito comum as conversas em que eu participava chegarem a pergunta: o que você vai fazer agora? Que eu sempre respondida com algo genérico tipo: estou analisando as opções ou estou trabalhando nisso. Eu sabia que era uma desculpa e a pessoa do outro lado também sabia, então ficava aquele clima estranho.
     Quando eu adotei o papel de cuidadora oficial da vó essa pergunta sumia, tanto pelo fato de eu já ter uma "ocupação" quanto pelo fato de que as notícias sobre a situação da vó serem mais importantes. 
Então usando esse disfarce eu ganhava tempo e escondia o fato de eu não ter ideia do que fazer da minha vida.
     Outra diferença entre a situação da vó com a do pai era que a morte dela não foi inesperada, foram anos de processo, e chegou um ponto que a médica que atendeu ela disse que ela já estava em processo de morte, não tinha mais como reverter isso, então a melhor coisa a se fazer era deixar ela confortável até que isso acontecesse.
     Acho que o melhor jeito de explicar todo esse período é uma comparação com um filme chamado "Se eu ficar" e nele uma menina sofre um terrível acidente de carro com a família e, para não dar muitos spoilers, vou só dizer que as coisas vão ficando cada vez piores, Em uma cena o avô da menina fala algo como: "eu te amo, mas se você não quiser mais ficar aqui (nessa vida), eu entendo". Isso me tocou porque era exatamente o que eu sentia pela vó, óbvio que eu a amava e queria que ela continuasse com a gente o máximo de tempo possível, mas a vida dela se tornava cada vez mais complicada, e ela foi parando de fazer todas as coisas que ela mais amava, como conversar no telefone e tomar chimarrão, por exemplo, e isso foi só o começo, então se ela estivesse cansada de lutar contra um problema depois do outro e simplesmente desistir de tudo, era totalmente compreensível.
     Não foi só o corpo da vó que foi parando de funcionar, a mente e consciência também. Eu sempre conversava com ela, comentando sobre algo aleatório, ou pedindo licença para fazer alguma coisa. Uma vez eu peguei uma revista qualquer que eu achei, me sentei do lado da cama dela e comecei a ler em voz alta. Eu fazia isso porque eu achava que ela deveria ficar entediada e sozinha o dia todo naquele quarto. 
     Por mais que eu tentasse, a maioria das conversas eram unilaterais, porque não recebia nenhuma resposta (se ninguém responder ainda conta como conversa? ou já viro um monólogo?) e eu ficava pensando se ela tinha entendido algo do que eu disse, ou se pelo menos ainda lembrasse quem eu era. Os momentos em que ela olhava diretamente para mim, apertava a minha mão ou balançava a cabeça eram as melhores partes do dia, porque era o sinal de que aquela pessoa que a gente conhecia ainda estava ali, de um jeito ou de outro.
     Uma manhã a mãe me acordou dizendo que tinha chamado a ambulância porque a vó não estava muito bem, mas que achava que os paramédicos já não poderiam fazer mais nada. E ela estava certa. Quando os socorristas chegaram, foi decretado o óbito e a vó foi coberta com um lençol. Eu só fiquei ali parada agradecendo ela por tudo que tinha feito por mim, e desejando ter dito isso mais vezes em voz alta.
     A morte dela podia ser o final da história, mais ainda tem alguns fatos que quero contar.
     A primeira coisa é que eu sonhei com ela algumas vezes depois da passagem dela. Nele tudo tinha acontecido exatamente como foi no mundo real, mas um dia eu chegava em casa e ela tinha voltado, mas eu era a única pessoa que percebia que isso era estranho e não devia estar acontecendo. Teve outra vez em que eu via ela na cozinha, limpando e cozinhando normalmente e tudo não tinha passado de uma doença que já tinha sido curada. coisas que eu interpretei (É que a minha psicóloga chegou a conclusão que era possível) como eu tentando seguir em frente.
     Nos primeiros dias após a morte da vó, quando eu estava sentada na sala, vendo TV por exemplo, eu sentia uma sensação estranha, como se tivesse um buraco na minha rotina, como se eu tivesse esquecendo de fazer algo importante. Cuidar da vó ocupava tanto do meu tempo, que não ter essa tarefa era esquisito.
     Outra coisa que tive que me acostumar é que sempre que a gente ouvia um barulhinho de algo batendo, já ia lá ver o que tinha acontecido ou se a vó precisava de ajuda. Demorou um tempo até eu me habituar que um som desse estilo era só algo batendo na janela, ou o vento derrubando alguma coisa.
     Nessa época eu dormia junto com mãe, e por isso, quando o quarto "ficou vago", naturalmente ele foi oferecido para mim. Eu ajudei a reformar e redecorar o quarto, mas realmente me apossar dele demorou mais alguns dias, porque a ideia de ganhar algo com a morte da vó parecia errado. 
     A lição desse texto é que quando as pessoas me elogiam por todo o tempo que eu passei com a vó, a verdade é que primeiro ela estava do meu lado nos piores momentos da minha vida, eu só estava retribuindo e segundo é que na verdade ela estava me ajudando tanto quanto eu à ela.

Comentários

Postar um comentário