O plano perfeito

     Sabe aquela famosa música que diz  "Deixa a vida me levar"? pode funcionar para o Zeca Pagodinho, mas comigo não, porque minha ansiedade não deixa, e nesse ano o TOC ainda piorou isso. 
     A principal coisa que eu faço para me ajudar com a ansiedade é ter uma rotina, saber como o meu dia vai ser me deixa bem melhor. Nessa rotina incluo coisas mais sérias como ir á psicóloga, até coisas banais como fazer um lanche ou assistir a uma série. E mesmo as coisas que estão programadas, ainda podem ser repensadas.
       Agora com o TOC tudo isso foi potencialmente aumentado e até as coisas comuns como as que eu citei ali em cima exigem uma série de pré requisitos e passos a serem seguidos. Eu listo todos os movimentos necessários criando um tipo de roteiro, "ensaio" esse roteiro na minha cabeça várias vezes, e só aí é que eu vou realmente colocar a mão na massa. 
     Vou usar o exemplo do lanche da tarde, vamos dizer que decidi que quero um café com leite e uma torrada de queijo, aí você pode pensar que é algo simples e que pode ser feito sem precisar pensar muito certo? Para a maioria das pessoas sim, mas para mim inclui vários adendos, como o fato de que provavelmente eu estou torrando o pão como uma segurança extra, caso eu ache que o pão estivesse contaminado com algo, ou lavar tudo que vai ser usado, mesmo que eu tire elas do armário ou escorredor de louça. Além de alguns passos extras, as coisas tem que ser feitas em uma certa ordem para dar certo
     Isso não serve só com coisas que eu quero fazer, mas também com coisas que eu quero dizer. Sabe uma atriz que repete o roteiro várias vezes até decorar as suas falas? Essa sou eu. De início esse roteiro ficava só na minha cabeça, mas agora eu escrevo ele, como os tópicos que quero falar na terapia, e até mesmo esse texto, boa parte do que eu escrevi aqui foi repassado algumas vezes antes que eu digitasse e depois de digitado ainda reli tudo de novo.
     Falando nesses passos a minha psicóloga sempre fala que eu sou cheia dos "esquemas", porque tudo que eu faço vira uma história cheia de explicações.
    Todo esse comportamento tem a ver com tentar ter controle, porque deixar tudo ao acaso me apavora e aí eu começo a adiantar os problemas e sofrer por antecipação, então eu crio possíveis soluções para possíveis problemas para me sentir mais confortável.
     A pior coisa dessa necessidade de controle é que por mais que eu me esforce e pareça ter achado o plano perfeito, eu não tenho como controlar a tudo e todos, como por exemplo: eu preciso contar algo para a minha família, eu não posso garantir como eles vão reagir, pode ser que eles fiquem felizes, tristes ou preocupados, eu posso no máximo supor o que eu acho que vai acontecer. Uma vez eu vi um post que dizia "odeio quando eu tenho a conversa inteira programada e a outra pessoa não segue o script" não sei quem escreveu isso, mas descreve bem essa situação.
     Ter que passar por todo esse trabalho traz um resultado agridoce, pode ser cansativo e desanimador, mas quando dá certo é uma sensação ótima. Um dos melhores momentos desse ano foi a primeira vez que eu fiz a tal torrada de queijo sozinha e pensei: olha só quem não precisa mais passar fome esperando que terceiros façam a comida" ou ter que ir lá e pedir que alguém me faça esse favor.

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