Pequeno retrato de uma pandemia

     Ultimamente na terapia eu tenho tratado quase que unicamente de dois assuntos: relembrar de acontecimentos bons (ou nem tão bons assim) e situações que envolvem o TOC de contaminação que a pandemia me trouxe, então agora vou juntar os dois e reanalisar os dois anos e meio desde que essa loucura começou. 
    Um bom motivo para esse texto é que agora que a pandemia já está no final é importante a gente parar e entender tudo que aconteceu neste tempo todo. Talvez seja precipitado falar de final da pandemia, mas na prática é isso que está acontecendo aqui em Joinville, ás máscaras não são mais obrigatórias (mais do que isso, foram abandonadas por quase todo mundo) e se não me engano também não tem mais restrições para quantidade de pessoas em prédios, elevadores e etc. além de avisos sobre distanciamento, que continuam lá, mas ninguém respeita. É como se a maioria das pessoas já tivessem transformado a pandemia em uma história do passado e seguido em frente.
     Mas para chegar no final, temos que começar do início. 2020 começou bem, eu tinha montado uma rotina boa e saudável, que incluía melhorar a minha alimentação, ir a academia quatro ou cinco vezes por semana, o que deixava o meu corpo e mente melhores, falando em mente, voltei para a terapia. 
     Sabe aquele ditado que diz: a calmaria antes da tempestade? Pois então, nesse caso não era uma mera tempestade, era um ciclone, praticamente um apocalipse, e a gente nem tinha os Winchester para nos salvar (desculpa por mais uma referência aleatória ao mundo pop, meu cérebro de fã não consegue evitar, mas voltando ao assunto). Foi nesse momento que a bomba de destruição em massa (quase que literalmente) chamada Covid explodiu.
     Meu último motivo para esse texto é meu novo programa obsessão que é Quilos mortais que fala sobre pessoas obesas mórbidas lutando para terem uma vida mais saudavel (É sério, eu não consigo parar).      
       Como minha psiquiatra disse, isso é o extremo oposto da minha situação, mas mesmo assim eu consegui achar uma relação. Antigamente eu ficava me perguntando como a pessoa deixa a situação chegar nesse ponto. Eu sei que a pessoa não faz isso de propósito e precisa de ajuda, mas precisava mesmo chegar a pesar mais de 250 quilos e nem conseguir andar direito para tomar a iniciativa?
  Hoje em dia, depois de tudo que aconteceu comigo, eu entendo melhor essas pessoas, porque quando eu colocava boa parte da minha comida no lixo porque o meu cérebro inventava que ela estava contaminada, eu travava e não conseguia comer mais, lá no fundo eu sabia que isso era loucura, porque eu mesma tinha acabado de lavar aquele prato, sem contar que me sentia culpada, porque existe muita gente passando fome e eu ali desperdiçando a minha refeição, mas continuava fazendo mesmo assim. Foi então que eu tomei uma iniciativa e mudei a situação? Sim, mas para pior, eu simplesmente desisti de comer comida de verdade e me alimentava somente de pão seco, sem nada e torrado ou uns bolinhos de qualquer coisa que sobrou na geladeira que a mãe fazia, também torrados.
     Resumindo, você pega uma frase muito dita pelo doutor da TV, como "você precisa trabalhar no motivo que faz você comer demais" e troca o demais para praticamente nada e pronto temos a definição do meu caso. Ou a frase "você tem que chegar na meta de X quilos" que foi dita tanto pelo médico da TV, quanto pela minha psiquiatra.
    Outra coisa que estava bem complicada era beber água, isso era uma atividade com tantos passos que ás vezes eu simplesmente desistia, porque não aguentava mais a frustração de ficar repetindo a mesma coisa inúmeras vezes e mesmo assim não conseguir o resultado esperado. 
     Eu sabia que não era saudável e eu estava com medo do que poderia acontecer se eu passasse mais um dia assim, mas simplesmente não conseguia agir de outra maneira.
     Aliás essa foi uma época muito bíblica da minha vida, porque tinha dias que eu literalmente me alimentava só de pão e água.
      As coisas foram piorando e eu fui parar no hospital e estava com tanta coisa na cabeça que nem fiz questão de colocar um sapato e fui de pantufas para lá, eu fiquei horas em uma sala de espera cheia de gente, com um soro no braço e PANTUFAS, por "sorte" eu tinha implicado com o meu pijama na noite anterior e estava usando uma roupa normal.
    Então quem sou eu para julgar os outros sobre hábitos alimentares destrutivos e precisar de intromissão de emergência não é mesmo?
     Esse foi o meu ponto mais baixo, e como diz outro ditado: Quando se está no fundo do poço, o único lugar para ir é para cima, mas não foi tão fácil assim.
    Quando eu voltei para casa eu me transformei em um bebê, as pessoas precisavam fazer tudo para mim, eu só comia quando e o quê me servissem e mesmo que estivesse com sede, eu só bebia quando a mãe chegasse em casa e me servisse um copo. Na verdade eu só bebia com canudo e sem tocar diretamente no copo, o que se você pensar não é tão diferente de uma mamadeira.
     Seguindo a analogia com crianças pequenas eu também tive que aprender (ou reaprender) a lavar a mão sozinha, usar talheres e pratos normais entre outras coisas
     Outro ponto importante e que marca que essa bagunça toda tá chegando ao fim é que estou voltando para o meu peso médio. Quando eu parei de comer eu obviamente emagreci bastante e de lá para cá eu estou fazendo o esforço de me recuperar, é como se, em algum ponto do caminho, eu tomei o rumo errado, agora eu estou tentando voltar até esse ponto e só assim poder seguir a direção certa.
     Em algum momento essa pandemia vai virar só uma coisa que você aprende nos livros de história da escola, como a peste negra, ou algo que é contado de geração em geração na família, tipo sobre um avô ou bisavô que lutou na segunda guerra mundial. Esse momento está demorando mais do que qualquer um poderia imaginar, mas em alguma hora ele vai chegar.
     Esse texto ficou longo, mas a pandemia também, então acho que tudo bem.

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