Por volta de 10 anos atrás minha fobia social e ansiedade estavam talvez em seu ponto mais alto, comecei a fazer terapia e em uma consulta a psicóloga me perguntou algum grande objetivo que eu quisesse alcançar e eu chutei: "ir a algum grande show".
Algum tempo depois essa doutora se mudou para São Paulo e a gente, obviamente, perdeu o contato, mas queria poder dizer para ela que eu consegui, mais ou menos, porque minha ideia original era um mega evento com um artista internacional, mas acho que um show lotado de um dos maiores nomes da música pop nacional atual é perto o suficiente.
Na noite de 25/02/2024 eu estava estava junto com mais 25 mil pessoas dentro da Pedreira Paulo Leminski, em Curitiba vendo João Vitor Romania Balbino, mais conhecido como Jão surgir do chão (olha, até rimou) inacreditavelmente de perto, com seu colete de paetê, debaixo de chuva dizendo que queria o mundo e nós estávamos dispostos a ajudar ele a conseguir (o resto do mundo, porque o nosso mundinho ele já tem) e com muito orgulho de ver aonde o nosso menino do interior está chegando.
Caso a minha mãe e psicóloga atual estiverem lendo esse texto, eu queria dizer que eu consigo ver vocês revirando os olhos e dizendo "ah não, de novo não, não aguento mais". Queria poder dizer que sinto muito e que vou parar de falar no show, mas seria uma mentira e eu aprendi que não se deve fazer promessas que sabe que não pode cumprir. Mas esse texto não é especificamente sobre o show (talvez eu escreva sobre isso depois), mas sobre o que ele significou.
Na verdade a história desse texto começa bem antes. Não lembro em que ponto o Jão passou de um artista que eu sabia que existia, mas nada de mais, para o artista mais escutado do meu Spotify e o meu cérebro fica intercalando as músicas que ele vai ficar repetindo o dia inteiro, (para não enjoar de nenhuma e você vai ver até onde o meu cérebro vai por esse homem) mas em algum momento essa chavinha foi virada e libertou uma força avassaladora. Quando eu estava quase conseguindo dominar essa força, eu soube do show em Curitiba e tudo começou de novo, ou citando o próprio cantor: "Quanto eu consigo não pensar só em você, aí vem você"
A minha psicóloga uma vez me perguntou se o fato de eu gostar muito de uma coisa me incentivaria a tentar faze-lo, eu por fora dizia que era possível, mas por dentro eu não tinha muita convicção não, baseado na quantidade de coisas que eu deixei de fazer na pandemia por puro medo, não foi uma vez nem duas que eu me peguei pensando "nossa, está tão lindo e parece delicioso, pena que não vou conseguir comer". mas esse show me mostrou que sim, mesmo que inconscientemente.
É nesse ponto que chegamos no ponto específico deste texto: A quantidade impressionante de regras que eu fui quebrando para ver o meu ídolo. Regras minhas mesmo, não que eu tenha feito algo ilegal (Apesar de eu ter comprado uma bolsa de uma ambulante na rua, que era potencialmente pirata, e mesmo a pirataria sendo socialmente aceita no Brasil, não deixa de ser crime, mas voltando ao assunto desse texto). Acho que eu gostei tanto da ideia de ouvir ao vivo as canções que eu já escutei online umas 532 vezes por mês (Esse não é um dado real, é que quando eu quero enfatizar uma coisa eu invento números totalmente aleatórios) que o meu cérebro foi bloqueando tudo que pudesse me impedir de ir e isso foi tão forte que eu nem percebi que isso estava acontecendo até já estar de volta para a minha vida normal e sem muita graça.
Para começar o show era em um sábado ás 21hs, em Curitiba, eu trabalho até as 17hs (para ser otimista, já que é praticamente impossível de eu sair de lá antes das 17:20) em Joinville, as duas cidades são próximas, mas não o suficiente para fazer esse cronograma funcionar, então eu ia ter que pedir uma folga para a minha chefe, folga essa que ela não tinha nenhum motivo para me dar e chefe essa que eu conheço a poucos meses. Mas isso não me impediu de pedir, coisa estranha já que não costumo pedir coisas nem para a minha mãe. Primeiro bloqueio ativado, já que sem essa permissão não adiantaria nem considerar o show como possível.
Primeira etapa vencida e o folga foi devidamente autorizada, então agora vem a viagem e com ela três problemas: eu viajaria sozinha, para um lugar onde eu não conheço nada nem ninguém, de ônibus e sem saber exatamente como seria a viagem de volta. A dificuldade da primeira e a última coisa é que a minha ansiedade não lida bem com improviso e a segunda é que eu ainda não recuperei a confiança total nos ônibus depois da pandemia. Mas foi aí que o segundo bloqueio entrou em cena e tudo isso me incomodou de pouco para praticamente nada, tive uma pequena preocupação com o fato de ter um homem na poltrona do lado da minha, mas não o suficiente para procurar outra, na verdade a ideia de deixar a janela fechada para não ficar com sol na cara dele me incomodou mais.
Quando eu já estava na fila esperando aconteceu a primeira coisa que realmente me incomodou: O meu óculos escorregou e caiu no chão, eu não quis colocar de novo e sai perguntando para os ambulantes se eles tinham guardanapo para passar nele e por mais incrível que pareça, eles não tinham e eu tive que usar um cartaz que uma menina estava distribuindo. Um pouco mais tarde eu tive um problema parecido com a garrafinha de água.
Avançando na linha do tempo chegou a hora que começou a chover, a ponto de eu achar que enxergaria melhor sem os óculos, já que ele estava cheio de pingos mesmo, mas foi aí que o show começou e provou que eu estava errada, mas aí eu tinha um problema, os meus óculos estavam jogados na bolsa, o que tornava eles "sujos", então o que fazer? Eu me recusei a passar por tudo isso para ver ele todo borrado, e inventei a desculpa que se eu colocasse o óculos na ponta do nariz, ele ficaria longe o bastante para estar "seguro".
Aí fica a dúvida: Porque o meu cérebro simplesmente não bloqueou isso também, assim como todo o resto? A minha teoria é que esses pequenos problemas não me impediriam de estar no espetáculo, na verdade eu já estava lá, então o meu cérebro conseguir se soltar e voltar a sentir alguma coisa.
Outro obstáculo que podia ter estragado toda essa história seria parar para pensar que eu estaria em um local lotado com milhares de pessoas, eu melhorei nesse sentido desde que comecei a trabalhar no supermercado, mas a escala é totalmente diferente, lá eu lido com duas ou três pessoas por vez, no máximo, e em uma distância confortável, mas eu nem pensei nisso até estar quase esmagada e não conseguindo me mexer sem tocar em pelo menos umas duas pessoas e só fui ter a dimensão total quando vi uma foto aérea do local no dia seguinte.
Lembra que eu falei que só percebi os bloqueios depois? Pois então, quando cheguei de volta em casa a minha mãe perguntou se isso tinha acabado ou se aconteceria de novo e eu só conseguia pensar: O show foi incrível e tinha dado tudo certo, então por que eu não repetiria?
Foi só depois que a ficha foi caindo (essa metáfora entrega desnecessariamente a minha idade, mas vamos seguir em frente) e eu entendi o que ela queria dizer, só com o passar dos dias eu percebi a quantidade de esforço que foi preciso para tudo aquilo acontecer e a minha resposta mudou para "realmente não é qualquer um que vai merecer todo esse empenho, porém não me arrependo nem por um segundo de ter feito". Mas como o Jão falou no show que aquela era a décima vez dele em Curitiba, então pode ser que em um futuro próximo eu volte a capital paranaense.
Coisas aleatórias que o Jão também influenciou:
Tem várias sacolas retornáveis em casa, mas eu sempre esquecia de pegar e voltava para casa cheia de sacolas de plástico, até que comprei uma com a imagem que tem nas camisetas oficiais (que eu também tenho), isso foi o incentivo que eu precisava, ou seja, além de tudo o Jão também ajuda a preservar o meio ambiente.
A criação do que eu chamei de "sofrência fitness": Por fora eu estou andando na esteira com o suor escorrendo pelas costas, ou sentada no aparelho levantando 15 Kgs com a perna, mas no fone de ouvido está o Jão fazendo jus a sua "fama de sofredor", mas tenha cuidado, o seu corpo já está pedindo arrego, você não precisa que a sua mente faça o mesmo.
Caso você tenha ficado curioso sobre quem é esse santo milagreiro, ou só quer entender as referências deste texto mesmo eu vou fazer meu papel de fã e espalhar a palavra de Jão deixando o link do canal dele aqui.

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